Eu Ouço Vozes ou; Ouviram do Ipiranga ?

jan 25, 2014

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Categoria(s): Blog, Desenho, Texto

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Em 2013 eu dei um tempo do Face. Promover uma vida online bacana consome. Marcações, cutucadas, Bárbara curtiu isso, Maurício compartilhou aquilo, é tudo o contrário do que eu deveria estar fazendo; criando.

Há muito eu vinha adiando pular de cabeça e alma em meu novo projeto; o ILUSTRE SP, que consiste em retratar meus lugares favoritos de São Paulo em ilustrações e compartilhar a experiência de suas criações. Eu só estava esperando acabar aquele trampo, passar o fim do ano, entrar aquela grana… e mais isso e aquilo outro. Daí que um dia vi esse filme sobre esse cara que, de uma hora para outra, fica paralisado, salvo as pálpebras. Então pensei: Chega! Vai que amanhã sou eu. E  acabei com as distrações ( Face incluso e sobretudo ), e foquei. Foi aí que comecei a ouvir as vozes.  E a mais alta delas me dizia “ vai lá na Dom Pedro “.

Av.Dom Pedro_Rascunho

Rascunho da Av. Dom Pedro. Mas por quê ?

É até normal que uma avenida seja um lugar favorito na cidade ( especialmente em SP, onde a maior atração turística é o PIB ). Mas quem pensa em Paulicéia, morador ou forasteiro, realiza pelo menos uma dúzia de avenidas, que já vêm de bate e pronto, antes de considerar a Dom Pedro. Eu não sou exceção. Por isso, quando as vozes me disseram para ir para o Ipiranga, manifestei em sobressalto. Mas havia um porquê.

Rascunhos Monumento

A razão do meu destino começou a se esboçar em minha mente

Quando eu era criança ( de 3 a 5 anos ), viajava frequentemente entre o Cambuci e o Ipiranga, entre a minha casa e a da madrinha.  Durante essas viagens, algum sentido me alertava sobre um certo contrassenso. Hoje entendo; a arquitetura entre os dois bairros era distinta demais. A sensação era de como se, em apenas 10 minutos, eu fosse de um subúrbio operário de Londres ao Palácio de Versailles. Mesmo em suas versões papel carbono, made in idolatrada salve salve, o baque era sentido.

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Rascunhos do Monumento à Independência, no Ipiranga

Passei muito tempo por lá, na casa da madrinha, e ir ao museu era como descer para o play. Na verdade, ” o Museu “,  entre os locais, consistia em toda área que inclui o jardim, o parque, o riacho, o prédio do museu propriamente dito e o monumento da independência, que era, efetivamente onde eu costumava brincar todas as tardes. O complexo contava ainda com uma casinha, que me diziam, era onde o ” Dom Pedro parou para fazer cocô “.  Lembro de perguntar para a madrinha se chamava ” Casa do Grito “porque o Dom gritava quando ia ao penico. Coisa de criança. A madrinha adorava.

De qualquer forma,  descobri que para mim, o Museu era na verdade o Monumento. Tamanha era a sua imponência, e tamanha minha pequenez diante dele, que fiquei comovido além de qualquer cura. Fazia anos que não o via de perto. Muitos. Foi…. estranho. Ao mesmo tempo que tudo era novo, havia os detalhes dos quais me lembrava perfeitamente, as esculturas, em especial.

Agora estava tudo claro. Eu não estava indo ao Ipiranga. Estava retornando. E a Av. Dom Pedro não era o destino. Era o caminho.

Rascunhos_Monumento05

Rascunho de Estátuas do Monumento do Ipiranga

Estava mais que decidido: minha primeira obra dessa nova empreitada seria um quadro do museu ( e todo o resto ). Isso implicaria em vários rascunhos e estudos de coisas que não apareceriam na versão final, mas sem os quais seria impossível captar a essência da paisagem. Como material para referência nunca é demais, parti para uma documentação fotográfica do entorno. Depois do museu propriamente dito e seu jardim ( muito bonito e bem cuidado, aliás ), fui  para a rua da casa da madrinha, de onde me lembrava haver um belo ângulo de uma igreja bem peculiar que fica no começo da Ricardo Jafet. Por algum motivo que desconheço, não havia relógios na madrinha, e quem quizesse ver a hora, tinha que olhar pela janela para o topo da igreja.

– Que horas são ?

– Não sei, vê na igreja!

E se esperava que o octógono de seu topo completasse uma volta  em seu eixo para saber do horário. Ficou claro que essa Igreja tinha que estar no Quadro também.

Assembleia de Deus ministerio ipiranga

Igreja Assembleia de Deus, no Ipiranga.Vou pintar no quadro também. Mas nada a ver com cristandade.

Depois da Igreja, pensei ” pronto, acabou “.  Só que não. Quando me virei para ir embora,  bem na minha frente havia uma casa.  A casa.  Aquela que eu amava  quando moleque. Jamais me esqueci dela completamente, mas me passou despercebido o quão profundamente se instalara em meu imaginário.   Seu estilo arquitetônico, o jeito como as retas e curvas se conversam, remete diretamente ao meu trabalho. Rua acima vi mais casas, no mesmo estilo, as quais me lembrava todas, umas mais, outras menos, mas muito mais artísticas do que os blocos de concreto  que o presidente Getúlio construiu para os operários do Cambuci.

Casa_modernista01

Casa_modernista02

Essa casa se parece com o meu traço. Ou o contrário ?

Em uma época onde a informação era  limitada, e sem pais letrados em cultura visual,  minha  primeira ( e por muito tempo única ) conexão com alguma corrente artística foram essas casas.  Gostei tanto que, décadas depois, acabaram por servir de porta de entrada para a busca do meu estilo.

Um amigo me disse que quem conhece bem o artista, aprecia melhor a obra. Verdade.  Os trabalhos de todos os meus favoritos ficaram melhores depois de eu ter estudado os artistas que os criaram. Por isso resolvi criar esse blog. Para dar uma chance a quer quem saber um pouco mais sobre mim. E para os curiosos, que gostam de acompanhar os making ofs da vida.

Fachada_museu

 

Corrego_Ipiranga

 

Rascunhos_Museu01

Este é o primeiro post desse meu novo projeto, que surgiu a partir de duas diretrizes que resolvi adotar como estilo de vida:  criar e compartilhar. Áliás, se curtiu o post, peço para que compartilhe, de preferência através do Face: a melhor ferramenta de compartilhamento em massa da história. Vou voltar a frequentá-lo, inclusive, mas não muito. Afinal, tenho que continuar a reduzir os ruídos, para melhor ouvir as vozes. Os caminhos podem não ser lá muito claros, mas as recompensas valem a pena.

Logo menos tem mais

L

Ps. Parabéns São Paulo e obrigado por tudo.

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